21 junho 2008

Tenho um decote pousado no vestido...

Fotografia: ©Leo Carvalho

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.

©Maria do Rosário Pedreira

Em "A Casa e o Cheiro dos Livros"


Este e outros poemas dessa maravilhosa poetisa portuguesa, que passerei a publicar sempre na Casa de Leitura é desse livro lindo, que veio de longe.

"A Casa e o Cheiro dos Livros" saiu das prateileiras da FNAC de Lisboa para as mãos da minha amiga Marilac, que lá esteve no mês de Maio de 2008. Então voou de avião para Fortaleza e de lá veio numa linda encomenda pelo correio para mim.

Por esse e tantos outros motivos foi mais difícil escolher o primeiro poema do livro para publicar. Embora eu já esteja até relendo esse livro maravilhoso, que é muito especial para mim.

A Mari publica no Sentimentos e Palavras e neste momento tem um post lindo sobre Aveiro, um dos belos lugares visitados por ela na recente viagem a Portugal.


5 comentários:

Eternessências disse...

O poema é encantador mesmo!
E o presente, tão ansiosamente esperado,deve ter chegado ao seu coração com um sabor especial...
Beijos neste domingo, Carol!

P.S.- Além do Bocelli, também gosto muito da Dulce Pontes. Tenho um Cd dela. Voz e interpretação maravilhosas!
Mais uma escolha musical de bom gosto para acompanhar a leitura do poema publicado hoje.

Sonia Regly disse...

Carol,
Lindo!!! parabéns!!! Excelente compartilhar.
Estou sentindo sua falta lá no Compartilhando as Letras. Têm post novo, apareça por lá.

Juliana Caribé disse...

Carol, desculpe a demora em vir te visitar. Adorei tudo aqui. O poema do post é lindo. Eu não conhecia a escritora, mas procurarei mais coisas dela...

Vou te linkar, tá?

Beijos.

Marilac disse...

Carol,
Fiquei imensamente feliz com esse post!
Este belo poema tão bem selecionado ficou ainda mais bonito aqui, com essa imagem e essa musica ( amoo Bocelli e Dulce Pontes)

Essa poetisa expressa com tanta beleza e sensibilidade sentimentos que mesclam lembranças e esperanças...

beijos
com carinho,
Marilac

Luciana Andrade disse...

Que poema mais lindo.
De fazer arrepiar a alma.
Bjs e boa semana