24 maio 2008

Não adormeças

Pintura: Autoria Desconhecida

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

©Maria do Rosário Pedreira

Em «A Casa e o Cheiro dos Livros»


5 comentários:

[margarida] disse...

Oi, Carol
Desculpe-me a ausência... Estou num momento meio estranho, ando silenciosa [re]pensando na vida.

Vou cuidar de colocar umas imagens lá no meu canto! Também estou achando tudo muito clean, até meio triste...

:)

Beijo e carinho!

Marilac disse...

Carol,
Apesar de existir muita ternura em olhar quem amamos adormecer, sempre queremos mais tempo juntos antes que ele adormeça ...
Poema dos mais belos que já li.
o coração pulsa mais forte, e é impossivel não suspirar com esse poema!

Essa musica do Milton nascimento complementa esse belo post.

bjs
Marilac

Anônimo disse...

Não adormeça..

Faz um carinho com as palavras e até da vontade de não deixar dormir...

Teresa Cristina

Lucia disse...

Belissimo poema! Extremamente delicado,assim como o teu cantinho.
Gostei demais, fiquei realmente impressionada.
Estou linkado seu blog no meus blogs legais, espero que não se importe.
Abraços

Vieira Calado disse...

Um belo poema de autor que nunca tinha lido.
Obrigado.