31 maio 2009

Retratos

Fotografia: ©Elliott Erwitt

Lembra o vestido de linho que eu vestia?
Naquele dia
estávamos sozinhos na varanda
assim, sozinhos,
e a última luz da tarde estremeceu:
era um transe do tato
um dom do estio
o cio no tapete
e logo a noite.

Lembra a manhã daquele outono frio
no carro leito do trem para o impossível?
Os bailes de fim de ano,
as praias
noites de festa e
as férias
na piazza de San Marco?

Lembra,
lembra de tudo que essas fotos dizem
:
elas nos mostram agora o que ainda somos.

Lembra de tudo aquilo que foi dito
em tantos dias (quantos?)
as frases sussurradas que diziam
as mesmas frases da pele
a ressumar delícias
vivas ao toque
– a nossa pele
que nunca nos falhou suas promessas.

Lembrar é como a flor da tarde
reabrindo
e na varanda
a mesma flor dançando e outra vez
ao vento
nosso desejo insone e insolente
inominado
imenso
e resistente
que se alimenta
de todas as rotinas.

©Adelaide Amorim

Do lindo blog: Inscrições


3 comentários:

Andrea disse...

Oi Carol !

Lindo texto. Fotografias são reflexos de nós mesmos.
BJs, Andréa.

adelaide amorim disse...

Nossa, o poema parece que ficou mais bonito aqui e a imagem é ótima.
Também gosto muito de nossos papos!
Dá uma espiada no poema do Inscrições, acho que vou levar pra oficina, devo? =?

Beijo pra você.

Sonia Pallone disse...

Vim seguindo um rastro perfumado de poesia e cheguei aqui, onde as palavras têm cheiro de flores de primavera... Adorei.

www.solidaodealma2.blogspot.com