01 janeiro 2012

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE




Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...


Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...


E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...


E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.


Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.


Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!


E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...


Mario Quintana

31 dezembro 2011

Segue o Teu Destino



Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
De árvores alheias


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.


Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses


Vê de longe a vida
Nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses.


Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses
Porque não se pensam


Ricardo Reis
(Heterônimo de Fernando Pessoa)

28 dezembro 2011

O novo coração

Desenho: Escher


Ando ocupado!
Ando a construir
um modelo de um coração
inteiramente
novo!


Um coração
para o futuro: com o qual sinta
e ame. Um coração
com o qual compreenda os homens:


E que me diga também quem
devo livremente
cumprimentar com a minha mão -


e a quem
nunca deverei
estendê-la.


Semyon Kirsanov
(1906-1972)

Nota do Tradutor: Versão do LP, recuperada,
feita a partir da tradução inglesa de Anselm Hollo
reproduzida em City Lights Pocket Poets Anthology,
organização de Lawrence Ferlinghetti,
City Lights Books, São Francisco, 3ª edição, 1997, p. 81.


O poema acima foi capturado do imperdível blog:
DO TRAPÉZIO SEM REDE: http://arspoetica-lp.blogspot.com

23 dezembro 2011

Gostaria de descrever



Gostaria de descrever uma emoção simples
como alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
socorrendo-se de restos de chuva ou sol


Gostaria de descrever uma luz
que começa a nascer em mim
mas que sei não se assemelhar
a alguma estrela
pois não é tão brilhante
nem tão pura
e é incerta


Gostaria de descrever coragem
sem arrastar atrás de mim um velho leão
e também ansiedade
sem entornar um copo de água


para dizê-lo de outra maneira
desistiria de todas as metáforas
em troca de uma palavra
retirada do meu peito como uma costela
uma palavra
nascida dentro das fronteiras
da minha pele


mas aparentemente isso não é possível


e só para dizer – amo
eu ando às voltas como um louco
à procura de mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que apesar de tudo não é feita de água
pede água para a cara


e a raiva
diferente do fogo
pede-lhe emprestado
o tom eloquente


está tudo obscuro
está tudo obscuro
em mim
que homem de cabelo grisalho
irá separar de uma vez por todas
dizendo
isto é a essência
e isto é a matéria


adormecemos
com uma mão debaixo das nossas cabeças
e com a outra em inúmeros planetas


os nossos pés abandonam-nos
e entram na terra
com as suas pequenas raízes
que na manhã seguinte
arrancamos com dor


Zbigniew Herbert

«I would like to describe», em The Collected Poems:
1956-1998, Ecco: 2007.

Versão de Manuel A. Domingos

FELIZ NATAL!

20 dezembro 2011

Sonho Impossível




Sonhar


Mais um sonho impossível


Lutar


Quando é fácil ceder


Vencer


O inimigo invencível


Negar


Quando a regra é vender


Sofrer


A tortura implacável


Romper


A incabível prisão


Voar


Num limite improvável


Tocar


O inacessível chão


É minha lei, é minha questão


Virar esse mundo


Cravar esse chão


Não me importa saber


Se é terrível demais


Quantas guerras terei que vencer


Por um pouco de paz


E amanhã, se esse chão que eu beijei


For meu leito e perdão


Vou saber que valeu delirar


E morrer de paixão


E assim, seja lá como for


Vai ter fim a infinita aflição


E o mundo vai ver uma flor


Brotar do impossível chão


Versão/tradução: Chico Buarque

17 dezembro 2011

Los Hermanos ( Os Irmãos )


Hay hombres que luchan un día
y son buenos.


Hay otros que luchan un año
y son mejores.


Hay quienes luchan muchos años
y son muy buenos.


Pero hay los que luchan toda la vida:
esos son los imprescindibles.


Bertold Brecht

*

Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.
En el valle, en la montaña, en la pampa y en el mar.
Cada cual con sus trabajos, con sus sueños.
Cada cual Con la esperanza adelante,
con los recuerdos detrás.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar

(...)

Athualpa Yupanqui



Há homens que lutam um dia
e são bons


Há outros que lutam um ano
e são melhores


Há aqueles que lutam muitos anos
e são muito melhores


Mas há aqueles que lutam por toda a vida
esses são os imprescindíveis

Bertold Brecht

*

Eu tenho tantos irmãos que não os posso contar
No vale, na montanha, nos pampas e no mar.
Cada qual com seus trabalhos, seus sonhos
cada qual com a esperança afrente,
com as lembranças atrás.
Eu tenho tantos irmãos que não os posso contar.

(...)

Athualpa Yupanqui


Este poema é dedicado à Candice
e a Nova Rede de Amigos a nos ajudar.

Nota: a tradução dos poemas acima é minha mesmo.

02 dezembro 2011

Parolagem da Vida



Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!


Carlos Drummond de Andrade

26 novembro 2011

Contra a decisão de partir



O meu alfaiate é contra a decisão de partir.
É por isso, disse
ele, que não se vai embora;
não quer separar-se
da sua única filha. É definitivamente
contra a ideia de partir.

Uma vez partiu - afastou-se da mulher
e depois disso
nunca mais a viu (Auschwitz).
Partiu - afastou-se
das suas três irmãs e
nunca mais tomou
conta delas (Buchenwald).
Partiu uma outra vez - e afastou-se da mãe (o pai
morreu de velho). Agora
é contra a decisão de partir.

Ele era o companheiro
mais chegado do meu pai em Berlim.
Viveram
bons tempos
nessa Berlim. O tempo passou. Agora
nunca mais se vai embora. É
o mais definitivamente possível
(o meu pai morreu entretanto)
contra a ideia de partir.


Natan Zach


Versão do LP, do imprescindível blog
http://arspoetica-lp.blogspot.com/

Nota do tradutor: Versão de LP a partir da tradução inglesa de Peter Everwine e Shulamit Yasny-Starkman reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 295-296).


21 novembro 2011

Resíduos



De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.


Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).


Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.


Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.


Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?


Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...


De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.


De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade

Poema novamente colhido no blog:  ARS LONGA, VITA BREVIS

20 novembro 2011

Escreve

Fotografia: O Poema, Mario Quintana


"Já alguma vez estiveste numa guerra? Viste
corpos a cairem na poeira?"


"Sim."


"Então escreve sobre isso."


"Já tiveste os lábios de uma noiva a tocar
como uma flauta os teus lábios?"


"Sim."


"Então escreve sobre isso."


"Já alguma vez, depois de te embriagares, fechaste os olhos
e sentiste o rio vacilar e vibrar
e deslizaste sobre ele como um cisne?"


"Sim."


"Então escreve sobre isso."


"Já alguma vez estiveste quase a alcançar o que querias
e, de repente, tudo te fugiu,
silenciando-te o coração como um tambor?"


"Sim."


"Então escreve sobre isso. Não escrevas só
sobre o que ouviste. Não escrevas
só a partir do que os outros escreveram."


Sheikh Ayaz



Poema traduzido para o português por LP, do lindo blog Do Trapézio sem Rede

(Versão do LP a partir da tradução inglesa de Asif Farrukhi e Shah Mohammed Pirzada reproduzida em Modern poetry of Pakistan, organização de Iftikhar Asif e revisão das traduções de Waqas Khwaja, Dalkey Archive Press, Champaign/Londres, 2010, pp. 116-117).

13 novembro 2011

As Amoras



O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

Poema recortado do lindo blog: ARS LONGA, VITA BREVIS

31 outubro 2011

Para não dizer que não falei de Drummond no dia D

Foto: Andre Arment


BIBLIOTECA VERDE


Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.


Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.


Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passa a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.


Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Esparmacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.


Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?


Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente...

Carlos Drummond de Andrade